Textos

a medida da morte - 22Set2018 02:41:09



Contabilista de profissão, habituou-se desde novo a medir tudo na proporção das necessidades e do que devia, quer em dinheiro, quer nas emoções.
As emoções eram tal como o dinheiro uma moeda de troca, e embora, pelas contas dele fosse cobrador na família no que às emoções dizem respeito, vivia sozinho abandonado pela mulher e pelos filhos que não mais aturavam essa radicalização pelos números, espécie de histeria que tudo controlava em função ?do que dou e do que recebo?.
Ficou a viver sozinho no apartamento para o qual tanto trabalhou, e considerou como justa paga pelos anos de colecta da percentagem bancária do seu vencimento mensal.
Ficou com as mobílias, que a família não lhe exigiu nada em troca da histeria que aturou.
De pijama no meio da sala observa os cadeirões forrados a couro que lhe custaram cerca de dois meses de ordenado. Pela porta entreaberta via a cozinha com electrodomésticos de última geração anunciados há vinte anos atrás e que lhe reclamaram a soma que já não se lembrava mas seriam qualquer coisa como 6 salários desse tempo. Coisa pouca para a ambição desse tempo de mostrar aos amigos que a amizade que lhes dava era bem paga na justa medida do conforto que lhes oferecia quando o visitavam! Pelos vistos os amigos não consideraram justo pagamento? deixaram de o ser, ou pelo menos deixaram de aparecer.
Há 15 anos que a sua vida se dividia entre a cozinha, a sala, o quarto e a saudade da família, da casa cheia de amigos para o qual contribuía mensalmente com cerca de 10% do ordenado.
Abriu a janela ampla da sala feita em alumínio duplo para evitar os ruídos da rua para a qual contribuiu com metade do salário de um mês?
Debruçou-se na janela aberta e calculou os metros até à rua, seriam pelas contas dele cerca de 12 metros. Debruçou depois o olhar novamente sobre a sala, as fotos dos filhos em criança? da mulher ainda nova? do primeiro neto? de um grupo de amigos no secundário?!
Precipitou-se no salto calculado de uma vez só? Demorou pelas contas dele cerca de dois segundos e meio até bater no cimento frio. Não teve tempo de calcular os metros quadrados de calçada que estragou com a queda!


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=328071

A morte de Deus... - 22Set2018 02:41:09

Vejo sempre ao entardecer a gente que carrega a noite a buscar um vão de montra de rua para estender o cartão que lhe serve de colchão! Demora os olhos na vitrina presa a uma televisão para venda que demonstra a ultima tecnologia de alta definição no retrato pungente de uma criança esvaída numa praia.

Fica especado a apreciar a qualidade da imagem que mostra os mil fragmentos da bomba, agora banhados em sangue num qualquer mercado, não importa onde, só a alta definição importa!

A imagem muda e mais uma vez essa qualidade férrea mostra-nos os gordos sentados em poltronas a decidir o que fazer dessas bombas, das crianças que se misturam com os seixos das praias tão mortos como eles. Das mães que rasgam as coxas em embarcações para logo se perder numa rajada assassina, de vento ou de metralha.

E em discussões intermináveis invocam até Deus? Numas invocações ele usa uma coroa de espinhos, noutras aparece simplesmente vestido de um branco imaculável, outras ainda um turbante. E cada um tem a certeza que esse é que é Deus, que o seu retrato é o mais fiel!

Tão bem retratado que o desenho serviria para lhe dedicar um túmulo: ?aqui jaz um Deus que nada quis com os seus!? Como se ele se importasse!

Por isso não me perguntes se eu acredito em Deus, diz-me antes se ele acredita em mim!


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=324704

Exagero - 22Set2018 02:41:09

Joana, (nome fictício) era uma menina esplendorosa, inteligente, criativa, conversadora e afável. Amava as coisas simples da vida, a natureza em redor emocionava-a até às lágrimas.
Tinha com todas as criaturas vivas um elã quase fraternal de pura irmandade. Uma simples flor era como um mundo de amores que sentia como dela e parte dela. O mundo inteiro sorria-lhe e ela abraçava-o com uma ternura de cortar a respiração.
Uma simples paisagem sufocava-a de emoção? E tanto sufocou, que morreu!


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=317546

Ter e não ter... - 22Set2018 02:41:09

Por vezes sente-se falta,
não se sabe do quê,
só se sente?
Saudade do que não se sente,
uma espécie de mordaça na boca
e um grito calado ensurdecedor.
Um arrepio na pele
que nos traz sabor ao palato,
umas vezes doce nos devaneios que adivinho
outras amargas nas ausências demoradas
Mas até esse amargo sabe bem
porque se sente algo,
e sentir é mais importante.
Trocava esse doce pelo salgado do teu corpo,
o cheiro a algo que não distingo
pelo teu arfar ao meu ouvido
na urgência de ser provada,
sem tempo medido,
só a ânsia?
que me incha no ventre
e humedece o teu querer.
Sentiria a tua falta mesmo que não te conhecesse.



Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=317315

Imutável - 22Set2018 02:41:09

Canto o amor como uma inevitabilidade
Impossível não amar,
Como impossível não morrer.
Sou excelente a morrer
Já morri centenas de vezes!
E tu, quantas vezes já morreste?


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=316945

inutilidade - 22Set2018 02:41:09

Quisera eu matar-te
Nessa metáfora que usas
Usar eu das minhas armas
Contra o teu escudo
Trucidar te sem metáfora
No uso da palavra e do gume da minha arma
Romper te a noite longa
A que me condenas
Ser para ti luz do sol que te encandeia



Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=316294

O que os olhos não vêm o coração não sente. - 22Set2018 02:41:09



Na sua vida monótona no grande palacete, Hermínia vivia a sua viuvez agarrada a um frasco de perfume cujo odor lhe trazia à memória o falecido marido. Ao sentir o odor recordava as horas íntimas de intenso ardor, os suores na refrega de lençóis pejados pelos restos transbordantes de um tesão imenso?

Tinha que contratar um homem que lhe tomasse conta dos terrenos em abandono desde a morte do querido ausente.

Pedro, o filho da vizinha, adolescente e de rosto borbulhento seguia-lhe os hábitos e as rotinas, pelas janelas, pelas frestas das portas, entreabertas pela distracção da Hermínia. Cobiçava as coxas ondulantes que entrevia pela cortina do banho, os seios generosos e entumecidos cuja visão, substituía as fantasias que as revistas que escondia por baixo do colchão, lhe prodigalizavam.

Até que Hermínia contrata o novo feitor que iria cuidar da terra abandonada, homem feito, experiente e de corpo jovem. António de sua graça, ocuparia os cómodos da criadagem com acesso à casa de banho comum da casa já que a da criadagem estava a precisar de obras.

Um belo dia numa manhã de domingo António foi tomar banho e reparou no frasco de perfume, cheirou e gostou do cheiro, usa-o profusamente pelo corpo todo, nos sovacos, no peito, no pescoço e nos pulsos caminhando pela sala como se carregasse uma aura do falecido.

Hermínia entra vinda do jardim e sente o cheiro, inebria-se, as narinas dilatam-se, o coração acelera, como uma pipoca que palpita caiu com estrondo no chão de madeira num baque de estrondo e com um ?ui? de gemido orgástico.

António acorre à senhora, segura-lhe a cabeça, repara nos lábios húmidos e carnudos e não se conteve e provou aquela azeitona em pecado ofertante e ofegante pelo desmaio.

Hermínia acorda do breve desmaio com a língua de António na boca e o cheiro do falecido nas narinas? Entrega-se ao amplexo sem pudor nem reservas num restolhar de roupas rasgadas, numa estrafega de batalha, ciciada pelos gemidos e respiração entrecortada.
Pedro, o mequetrefe da vizinha observava aquele rio de roupa desalinhada pelo chão, os corpos suados na refrega da guerra declarada por amor. Nem nas melhores revistas tinha visto tal?

A partir desse dia António passou a usar o perfume do falecido, Hermínia continuou a desmaiar de gozo, Pedro continuou a suar da mão direita.

Até que um dia o perfume acabou, António tentou na farmácia do bairro comprar um perfume igual, enviou cartas para o laboratório que o produzia mas esse perfume deixou de se fabricar.

António perdeu o interesse para Hermínia, e o Pedro acalmou as dores de postura do braço.

Até que um dia Pedro reparou num movimento familiar entre os lençóis pendurados a secar, acercou-se pé ante pé e espreitou, via António de frente, com as calças pelos calcanhares, Hermínia ajoelhada de costas para o Pedro em frente de António em movimentos de cabeça de vai e vém, Pedro mal cabia em si de contente ? O António descobriu com certeza o perfume- Acto continuo tentou encontrar um melhor ângulo de visão e acercou-se pela lateral para ver melhor a cena, quando se posicionou, reparou em algo de estranho que não era normal.
Hermínia nesse movimento do pescoço que tantas vezes vira, usava algo estranho. A mão parou-lhe surpresa na entumecência enquanto semicerrava os olhos para perceber melhor?
Hermínia usava no nariz uma mola de roupa...


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=316147

Dias assim-assim - 22Set2018 02:41:09

Os dias nus que espreito pelo buraco da fechadura como senão fizesse parte deles, dias de sol posto logo pela alvorada da manhã. Vestido de pranto, despido de riso que não o demente.

Um riso estranho de escárnio como quem raspa as unhas na lousa despida de letras, num arrepio infinito que me atinge a cervical, assim mesmo de longe só espreitando pela fechadura.

Na vida dos outros projecto a minha, sem lhes tomar as dores que as minhas já me servem de pena maior num exercício cínico que aprendi, sem tempo para a dor dos outros!

Mas observo-as assim de longe concentrado nas minhas, diminuo-as até ao tamanho do buraco diminuto da fechadura pela qual as espreito.

A dor traveste-se de uma presença constante como uma ciática que se ferra qual dente de cão raivoso que nem as dores dos outros aplaca. Essa presença como uma aura que se projecta do lado de lá da fechadura, tudo cinzento num gemido surdo de bocas gretadas, cerradas pelo desconforto de quem se sente observado.

Uma presença sem velcros que possa descolar num arremesso de braços, como um streeper que se solta para deleite dos outros. Uma armadura medieval que não me protege dessa presença, como ácido, infiltra-se nas soldas das uniões da viseira e atinge-me a alma através da iris que me trás as imagens do lado de lá.

Cega-me essa presença constante da tua ausência!


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=314678

Devaneio - 22Set2018 02:41:09

Pensar-te é assim a modos que um dia de calor, com o suor a escorrer, do alto da testa para o rosto recém-barbeado, sentir o sal do suor a arder no rosto, nas feridas invisíveis que a lâmina insensível produziu.

Pensar-te é sentir a a secura no céu-da-boca, a língua como que engrossa entumecida criando o sufoco das ondas de calor que vejo ao fundo da rua de asfalto áspero como as palavras que não me murmuras, numa aspereza de ausência.

Pensar te é sentir a pressa no ventre, um calor do raio, prenhe de ausência poética com sintomas de pancreatite, fígado em vinha de alhos abafado num tinto bebido de véspera e que regurgito na tentativa de o provar de novo.

Não te pensei ontem como te penso hoje, penso-te hoje em catadupa de suores, maré cheia do meu contentamento.

Amanhã não sei como te pensarei, vou te pingar eu nas costas o meu suor pungente de sal em flor, enquanto me agarro às tuas ancas despidas que despudorada me ofereces como quilha de barca que se faz ao mar.


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=313844

crónica de uma queda - 22Set2018 02:41:09

Afigura-se um dia pesado, sem jeito para rimas. Compassado pelo passar das horas, o peso da negritude ameaça o andar cadente para a noite qual morte anunciada aos primeiros raios de sol, como tambores a rufar? Dá tempo que se reze aos santinhos de improviso! Sem jeito para improvisar, essa tem hora marcada.
Não há hora como a da morte. Um abraço sólido, sem tempo para arrependimentos, só esse interregno de visão passado. Um tempo que se desmorona, outro sem descoberta, ali aberto aos nossos olhos mas sem vislumbre.
Pode existir doçura nesse abraço, como um penhasco sem fim?
Ou aqueles sonhos em que despencamos de uma altura sem ver o fim da descida, só o terror de cair? E cair? E cair?


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=302922

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