Morte ao fim da tarde | 11Dez2008 12:40:00

Publicado por: Jaber

Puxou a cortina do banho para o lado, com uma mão no rosto a limpar os olhos tacteou com a outra á procura da toalha, encontrou-a, amarfanhou-a entre as mãos e mergulhou nela o rosto encontrando alivio para o leve ardôr que sentia nos olhos. Começou então o lento ritual de limpeza do corpo. A toalha, velha, de felpo áspero e seco ia sugando a água que lhe escorria profusa pelo corpo, esticou o braço esquerdo limpando em actos circulares do pulso ao sovaco, levantou a mama, invejosa da altivez da juventude, para limpar por baixo. Reparou na carne pendente do braço, numa espécie de músculo invertido, a segurar-se ao osso, meneou a cabeça, acto continuo passou a toalha para a outra mão repetindo a operação. Inclinou-se, estribou uma perna na borda da banheira limpando-a da mesma forma do calcanhar ao alto das coxas, viu o monte de vénus, generoso, pensou: "tenho que marcar hora na esteticista". Repetiu a operação com a outra perna, saiu da banheira, mirou-se ao espelho, enrolou a toalha no cabelo, prendendo-a no alto da cabeça. Já no quarto vestiu o robe... Abriu o cortinado da janela, mirou os prédios cinzentos, tristes, que a vista lhe oferecia: "na Quarteira é que era bom", tinha os prédios na mesma mas vislumbrava-se uma nesga de mar... e á noite a água fria e clara em luares de azuis. Tinha sido na última vez que fizera férias há 10 anos atrás, já grávida do Francisco, e ainda com a ilusão de felicidade eterna que os sorrisos do Artur lhe prometiam. O emprego de tecelã no 1º turno, o matraquear de teares, o algodão pairando no ar, asfixiante, os berros do encarregado lembrando o atraso da produção depressa lhe tiraram a doce ilusão que devia ser propriedade universal e imutável.


Olhou para a foto do Artur na sua mesa de cabeceira, com aquele olhar emoldurado por uma melena oleosa, de matador, dizia ele nos tempos áureos, que ela nunca achou grande coisa, mas era um moço trabalhador e uma desculpa para escapar aos berros da mãe, á censura silenciosa do pai e aos ardores intimos que sentia, que quando aplacados, a consciência a fazia correr para o confessionário.


Agora quando o Artur lhe diz: "Odete, chega aqui", a repulsa é imediata, entrega-se sem se dar, desejando que ele não tenha ido recentemente ás mulheres da boite para assim ser mais rápido: "porra, mas porque raio não se serve só delas?". Encaminhou-se para a sala e deu com os olhos nela, no chão: "como raio veio isto aqui parar?", pegou-lhe encaminhou-se para o quarto do filho, as meias pelo chão, as cuecas sujas esquecidas: "quantas vezes já lhe disse para meter a roupa suja no cesto?" A cama por fazer, a profusão de brinquedos em desalinho. Olhou-se novamente ao espelho, extenuada, deixou que o cansaço a invadisse, lhe tomasse conta do cérebro. Acariciou a coronha da pistola, desenhando-lhe os contornos, apertou firmemente enlaçando-a, colocando o dedo no gatilho como viu naquele filme, o "Dirty Harry"; "aii, como era o nome daquele actor? Não interessa! Agora não interessa mais... Cansada, sinto-me tão cansada".



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Passeio de um dia de verão | 11Dez2008 12:40:00

Publicado por: Jaber

Por estes dias havemos de ir a Viana, atravessaremos a ponte velha em ferro que nos recorta o horizonte em xadrês misto de verdes e azuis. Tomaremos a estrada da Sta Luzia decorada de mimosas nas bermas, o cheiro de pinho no ar, sombras que afugentam o estio, verde como os teus olhos. Lá mesmo no cimo, por trás de ti, enlaçado na tua cintura, a tua nuca recostada no meu peito aponto-te a cidade que se espreguiça montanha abaixo com a Foz do Lima a render-lhe homenagens em cujos esteiros homens de pele curtida pelo sol fazem a apanha da ameijoa e do lagostim que nos dará paladar á caldeirada. Apontar-te-ei a Serra de Ãncora em prantos de verde e cinzento que contrastam com as faces trigueiras das moças que a habitam. Contar-te-ei a lenda da Moura que perdida de amores se embrenhou nesse verde e diz o povo que o seu choro se reproduz nas milhentas fontes e açudes que alimentam o rio Ãncora de águas cristalinas e cantantes, dizem as velhinhas de negro vestidas que em cada lamento de fonte há lágrimas de amor, tanto chorou a Moura por esses montes e valados.

 



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Tu | 11Dez2008 12:40:00

Publicado por: Jaber

Amor,
Traço final da minha vida
Incompleta.
Centelha de claridade na escuridão
Forçada.
Madrugada renovadora da noite
Escura.
Nota de violino entre sinos
A finados.
Fonte que brota de mim
Deserto.
Àgua fria em rodopios
De azul.
Água é o teu amor
Por mim.



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Anedotas
O Manuel estacionou o seu carro a noite no centro de Lisboa e retirou o rádio. Além disso deixou um recado:
- Não tem rádio, não tem valores, não tem nada na mala.
Na manhã seguinte, encontra o vidro partido e o recado rabiscado:
- Só para conferir.
Com Poesia

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