Inutilidades | 13Mai2009 00:00:00

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O dia caiu maduro coberto pela noite
O sol pôs-se nesse dia a nascente
Na elipse que descreveu, prometeu
Nascer no outro dia a poente

Os rios viraram ao contrário
Inverteram o sentido da corrente
Começaram a nascer no mar
E a desaguar na ínfima nascente

A lua envergonhada não mais namorou
De lua cheia virou quarto crescente
E veio para quarto minguante
Perdeu o brilho de beleza aparente

Secou o mar e secaram as fontes
Secou o brilho dos teus olhos salgados
Vencidos pela força da intempérie
Cristalizaram lábios outrora molhados

A vida deixou de se chamar assim
Na impossibilidade da morte
Sem sentido, existência inútil
À vida passou-se a chamar sorte


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O velho que morreu sem ver o mar | 12Mai2009 00:00:00

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Velho como a serra que calcorreia,
De perna bamba, às costas o cajado,
Barba rala, nariz adunco, pele macerada
Por companhia leva as ovelhas ao lado.

Suja e gasta presa nos finos ossos
A carne que lhe resta entremeada na pele
O velho caminha sem destino e sem lar
Exaurido pelos anos que das narinas expele.

Barqueiro sem barco, nem jangada
Em rio sem vida de margem estreita
Sobe a serra em passo dolente
Na busca de pasto e da paisagem perfeita

Nos olhos reflecte o verde dos montes
Mas era o azul imenso que ele queria,
Do grande rio sem margens, que lhe falam
As gentes que dali saíram um dia.

Um rio imenso onde pastaria sonhos
Perdido no alcance da margem inatingível.
Lá onde o céu se une a esse rio
Podia ser então o seu sonho possível

Ser menino outra vez e nos pés ter areia,
Não a terra ingrata que nunca o soube amar,
Morrer desfalecido na visão do azul,
Do imenso azul do céu e do mar


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Templo | 12Mai2009 00:00:00

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Busco a manhã nos teus olhos
O orvalho que te escorre na íris
Te limpa o rosto beija-te os seios
Teu ventre abençoado por Osíris
Terra mar e ar confundem-se
No horizonte do amor que te sinto
Afrodite do meu imaginário
Tornas-me de ti Baco faminto
Saboreio-te aos gomos
Pedaço a pedaço em oração
Descubro o teu santuário
Oráculo do meu coração


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memórias | 07Mai2009 00:00:00

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Sou um rapazinho com uma memória excelente, diria mais até portentosa. A minha mãe ainda hoje se admira das coisas que sou capaz de ir buscar ao baú das recordações. Fica pasmada por exemplo quando falo da primeira recordação de que me lembro, uma coisa do outro mundo, diz ela. Indo aos primórdios da minha existência tenho como primeira recordação ter ido a um piquenique com o meu pai, e vir com a minha mãe. Lembro com exactidão o tinto carrascão que o meu pai levou como parte operante nesse convívio que depois me deu uma azia tamanha que ainda hoje sofro dela.
Enquanto (quase) toda a gente só começa a ter recordações a partir dos 4-5 anos de idade, eu nessa altura já brincava aos médicos e enfermeiros com a Zé (Maria José ? nome fictício porque a mocinha hoje é casada e mãe de filhos e o marido pode ficar chateado), lembro as borbulhas nas nádegas na hora em que lhe ia dar as picas (este tratamento era medicado para todas as maleitas que a mocinha se queixasse, fosse constipações ou diarreia), a cuequinha branca que afastava para meio das coxas da rapariguinha e sentia crescer em mim coisas que só muito depois fui capaz de explicar pese embora a minha inteligência avançada para a idade. Mesmo a mocinha que passados alguns anos era afoita a tratamentos desse tipo e nessa altura também ela detentora de uma excelente capacidade de interpretação não percebia essa minha elevação de espírito.
Lembro os beijos que a Rita me dava para me ensinar a beijar de língua (nome também fictício por motivos óbvios). A Rita era um pedaço mais velha que eu, já sabia o que fazia e decidiu ser minha professora nessa nobre arte de beijar e consequências tais. Ainda hoje me diz a rapariga que eu fui o melhor aluno dela. Entrevejo na memória desses instantes o decote generoso onde ela me metia a mão para me explicar como se apalpavam os dilectos úberes de que era possuidora. De como me impulsionava pelas ancas numa pura demonstração da nobre arte de cavalgar toda a sela.
Lembro a minha catequista da comunhão solene (ai, a Natália!) o quanto me martirizava os joelhos nas longas rezas que me punha a fazer, porque foi ela que me deu a conhecer a verdadeira noção do pecado, ainda hoje lhe agradeço por isso, lembro as mimosas amarelas no meio do monte e dos problemas que tínhamos em descobrir as cuecas dela (também amarelas) arrancadas no frisson e jogadas Deus sabe lá onde (estão a ver a importância do catecismo aqui?).
Já no colégio interno saltava os muros para ir ter com a Cristina, sábia na arte de se fazer santa e na arte do cavalgar. Essa mostrou-me como é bom por vezes ser passivo, entregar as rédeas e ser sela, cavalgadas em disparada?
Um dia?continuo? ( não queriam mais nada pois não?)


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| 05Mai2009 00:00:00

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Em correria pelos campos
Nos jogos de pião e arca
Ao botão e á macaca
É o teu sorriso que me abarca

Cabelo ao vento, coração aberto
Nas calçadas dos meninos
Nas ruas que são nossas
Espalhamos amores e carinhos

Dás-me o bilhete às escondidas
Em papel de linhas e perfumado
Que leio escondido de sorriso aberto
Sonhar-te sempre ao meu lado

Espreito sem que ninguém veja
Ao passar a tua casa como por acidente
A janela do teu quarto entre as cortinas
Na esperança do teu sorriso complacente

E é tão lindo o teu sorriso
Tão doce a tua forma de amar
Um bem-querer que me desatina
Sempre que vou sem te olhar

Deito-me à noite a rezar
À Sta Rita, ao Sr. da Cruz
Para que leias o recado
Que no parapeito te pus

Marco encontro no mesmo sítio
Testemunha dos amores.
O campanário da aldeia
Ri-se dos nossos ardores.

Ou será inveja dos teus lábios doces?
Cujo sabor te roubo a medo,
No aconchego do teu doce abraço
Quero-te amar assim em segredo


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Retalho XIX Água conspurcada | 05Mai2009 00:00:00

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Olhava a água que descia do rego cavado no granito encaminhando-se para o grande tanque comunitário onde as mulheres da aldeia lavavam a roupa, a água limpa e translúcida que desabava em correria sobre a outra já azulada e espumosa pelas mil lavagens das mil peças de roupa que as mil mulheres carpideiras de mil sofrimentos ali lavavam. O Artur morrera, disseram-lhe assim como se fosse uma coisa normal. E ela parara ali a contemplar a água fria e cristalina ainda livre do conspurco da roupa suja, lembrando quando se casara, a lua-de-mel, as promessas de amor eterno, a melena oleosa na frente dos olhos, o corpo poderoso que por instantes fugazes a fizera feliz, lá atrás, muito lá atrás? seguindo-lhe o curso descendente olhou a água já suja do sabão, das fraldas pestilentas, dos lençóis manchados, das camisolas suadas, das cuecas embotadas, tantas das mais de mil que já lhe passaram pelas mãos cortadas pelo frio daquela água e do químico do sabão. Só se ouvia o som da água a cair no tanque, as outras mulheres estavam em silêncio tentando adivinhar o que lhe ia na alma. A morte era algo normal, vivida e chorada por todos e depressa esquecida embora estas mortes não fossem normais. Odete recolheu vagarosamente o lençol que tinha em mãos já torcido, caminhou lentamente em direcção ao pequeno terreno elevado acima do tanque e começou a estender o lençol aos tímidos e teimosos raios de sol que espreitavam entre as nuvens ameaçadoras. Mas era preciso aproveitar o sol em Janeiro? estendeu maquinal e cuidadosamente o lençol, que não mais aconchegaria o seu Artur, não mais testemunharia as estaladas que ele lhe dava, nem os seus estertores orgásticos que a deixavam dorida e conspurcada como a água do tanque. A confusão instalara-se-lhe na alma de uma forma que não conseguia destrinçar, se era alivio se era sofrimento o que sentia?


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Diário de Bordo II | 05Mai2009 00:00:00

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Já fui cardume em correria
Pelos rápidos deste rio,
Roí as malhas da paciência
Deste rede que me estenderam
Não quis virar a própria corrente,
Virei peixe em sentido ascendente
Vogo agora em contra ciclo,
Subo o rio, liberto do estuário
Da foz que todos partilham.
Vou subindo, espartilhado
Pelas margens que afunilam
Em direcção á nascente,
Alheio á força em sentido descendente,
Faço dos predadores que me buscam
De dente em riste, e garra afiada,
Da guerra que lhes enceto
O mote da minha viagem.
Peixe alado contra as levadas
Determinado e consciente,
Antes morto nesta subida
Que vivo na temperança complacente.


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